Alessandro Shinoda/Folhapress
A publicitária Fabiana, em sua casa, em São Paulo.
A publicitária Fabiana, em sua casa, em São Paulo.

“Tive depressão após o nascimento do meu filho, em 2009”, afirma a publicitária Fabiana Deziderio, 35.

O que elas sentiram na depressão pós-parto
Sombras da maternidade ainda são tabu

“Foi cesárea. Quando cheguei do hospital, notei meu zelo excessivo com o bebê. Se deixava o Joaquim no quarto, ia vê-lo a cada cinco minutos. Não desligava. Temia que algo acontecesse.

A mamada doía muito. No folheto parece natural, você acha que vai pegar o bebê e amamentar. Falam que amamentar é amar. Se não amamenta, não ama seu filho.

Eu chorava muito no banho, único momento em que eu parava para me cuidar. Quando anoitecia, dava taquicardia: sabia que ia passar a noite em claro. Na única hora que tinha para descansar, batia desespero. Não conseguia deitar e dormir.

AS OUTRAS

Poucas mães assumem a depressão pós-parto. Essa solidão desempenhou um papel no meu problema.

Quando você vira mãe, as outras te julgam. Se você amamenta, você é uma baita de uma mãe. Se faz parto normal, também. Mas, se eu dizia que estava deprimida, as outras ficavam assustadas. Eu me sentia em julgamento.

Olhava as outras mães felizes, elas não sofriam como eu. Eu me comparava muito. Pensava se aquilo era de verdade, tinha dúvidas se as outras estavam mesmo felizes o tempo todo. Parecia que só eu tinha problema. Ninguém chegou para mim e disse que também teve depressão.

Não condeno essa cultura da maternidade perfeita, mas muito do que passei foi por causa dessa fiscalização materna. Parece que, se você tem bebê, não pode ser franca.

CULPA

As consultas com a pediatra eram regadas a choro. Ela tinha dito que o processo de adaptação durava três meses. Eu já estava no quinto mês depois do parto e ainda chorava muito. Foi essa médica quem me contou que eu estava no quadro de depressão.

Ela disse que eu devia procurar ajuda. Na mesma hora marquei ginecologista.

Fui diagnosticada com depressão pós-parto. A gineco disse que tinha receio de eu tomar alguma atitude contra o Joaquim. Quando ela falou isso, bateu culpa. Foi como ouvir : ‘você não é uma mãe eficiente’. Pensei: sou apenas mãe o tempo todo, e ainda estou fazendo tudo errado?

O assunto depressão é meio ‘sofá da Oprah’ [Oprah Winfrey, apresentadora da TV americana], já acham que você rejeita o filho, que não consegue olhar para ele, que você é a Brooke Shields [atriz americana que sofreu depressão pós-parto grave e declarou não ter nem vontade de fingir que sentia algum carinho pela filha].

Mas eu sempre amei e sempre cuidei do Joaquim. Só que eu é que tinha que dar comida, banho, não queria ajuda.

DIAGNÓSTICO

Depois do diagnóstico, meu marido me ajudou. Minha mãe foi passar um tempo em casa, passei a admitir deixar alguém tomar conta do meu filho. Hoje, tenho babá. Antes, não aceitava.

Quis ficar bem logo para cuidar do Joaquim. O tratamento foi bem rápido. Tomei um remédio por uns dois meses, que trata a depressão e aumenta o leite. Com isso, meu choro no banho começou a perder o sentido, eu já não dava tanta bola para a culpa e aquela angústia que sentia à noite foi diminuindo.

Quando parei de amamentar, comecei terapia e tratamento com um antidepressivo. Abandonei o remédio cinco meses depois, mas faço a terapia até hoje.

Há três meses, eu e duas amigas criamos um blog (conversademae.com) para trocar experiências desse tipo. Tive sorte, minha depressão foi moderada. Fico pensando como será com mães em depressão grave.”

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