Jorge Araújo – 21.jan.2000/Folhapress
Vista aérea da avenida Paulista, na região central de São Paulo
Vista aérea do trecho final da avenida Paulista, em São Paulo, na região da Consolação

 

São Paulo só vai mudar se não desistirmos. Temos que denunciar, reclamar, mas precisamos agregar a isso, otimismo, visão das soluções, ousadia e persistência, para não nos tornarmos uma cidade que só reclama de si mesma.

A C40 passou por aqui. Foi muito importante porque nos mostrou onde estamos na luta contra as mudanças climáticas. Mas esse encontro e suas experiências não devem se transformar em mais um evento que é badalado enquanto ocorre e as personalidades estão presentes e, depois, vai para baixo do tapete. Mero evento festivo.

Participaram 16 prefeitos e 47 representantes de cidades importantes ao redor do mundo. O objetivo foi como enfrentarmos as mudanças climáticas causadas pela ação predatória do homem.

Entre a C40 e São Paulo há 3 vertentes.

A primeira, do atraso. Estamos muito longe do estágio das outras cidades.

A segunda, da esperança. Praticamente todas as experiências são viáveis para nós. Podemos aplicá-las aqui.

A terceira, da atitude. Queremos ou não dar o grande salto?

Como disse, não adianta nos transformarmos num vale de lágrimas. Nem esperarmos que o poder público vá realizar tudo. A responsabilidade é coletiva, cada um com a sua carga.

Se estamos muito atrasados, se vivemos muito abaixo das nossas possibilidades, a desperdiçar potencialidades e incorrendo em erros crucias, a mudança não é coisa pequena. Não é um ‘zastrás’ de varinha de condão. O período de transição cobra sacrifícios. Nada muda de graça.

Há várias iniciativas, conceitos e projetos apresentados na C40 que merecem atenção.

EXPERIÊNCIAS RELEVANTES

Berlim apresentou as propostas mais ousadas. Suas metas de redução de emissão de carbono são de 40% até 2020 e 85% até 2050. Estão investindo na adoção de fontes renováveis de energia, assim como Toronto.

Houston e Melbourne mostraram que quando se integra universidade, governo e empresas, o planejamento urbano sai sempre ganhando. Há desenvolvimento de novas tecnologias e o engajamento de diferentes setores em prol da qualidade de vida na cidade.

Uma das ações mais interessantes apresentada por Melbourne foi a realização de um mapeamento para analisar a ocupação e então, partindo daí, se planejar a cidade. Quando se sabe quem está em cada lugar da cidade, sabe-se o que precisa ser feito. Além da ocupação, também instalaram os Smart Parkings, que são sensores nas vagas, nas ruas, para monitorarem quando há vagas disponíveis.

Apresentado por várias cidades, como Yokohama no Japão, o uso de painéis solares nas casas para armazenagem de energia em baterias já parece um futuro certo.

Assim como a incorporação da bicicleta como modal, apresentada por Paris, Copenhague, Portland, Bogotá, Nova York e pelo Projeto Bicing, em Barcelona. As cidades estão devolvendo à população espaço ocupado por automóveis. A bicicleta é o modal mais importante na devolução da cidade aos habitantes.

DESAFIOS

Nunca é um mar de rosas. Nesse caminho para vencer os impactos das mudanças climáticas há desafios. Um é a privacidade. Alguns equipamentos que mostram gasto de energia e que monitoram procedimentos dão informações sobre a vida do cidadão. Alguns não aceitam isso.

Outro é a disponibilização da informação. Dados levantados pelo poder público para planejamento devem estar acessíveis a todos. Os governos não podem ser os únicos proprietários dos bancos de dados. Se todos tiverem a informação, além da transparência, vários setores conseguirão organizarem-se melhor.

E é importante que não se tenha ações conflitantes. Muitas vezes, a iniciativa privada vem, por um lado, com a lógica de mercado; e a política para o bem comum, vem por outro. Este choque tende a gerar resistências e atrasos.

Tem poder quem tem informação. E, no caso, o poder sobre a informação da cidade deve ser estendido ao conjunto de habitantes. Isso já está em processo acelerado de harmonização nas cidades pioneiras. Vamos ter que enfrentar tal conflito.

CONCLUSÃO

São Paulo precisa saber se quer ser uma cidade inteligente. Melhor para se viver. Isso implica mudar hábitos correntes, o que fere costumes antigos. Vamos enfrentar juntos, governo, sociedade e empresas, cientes de que todos terão que ceder um pouco para o bem comum ou cada um vai fazer campanha para manter seu interesse específico?

A resposta faz toda a diferença.

Outro caminho inevitável: só haverá sucesso se integrarmos poder público, o indivíduo (cidadão), organizações sociais, as empresas mais importantes da cidade e a universidade, que é a inteligência organizada. Integrar não em discurso vago. Fazê-lo em projetos reais, desafiadores e concretos, presentes no cotidiano. Despoluir os rios Tietê e Pinheiros, por exemplo. É um projeto para a sociedade inteira.

Para concluir, talvez o mais importante nessa transição: acabar com o discurso pessimista e reducionista. Toda vez que se mostra uma solução aparece alguém dizendo que só isso não resolve. Ou que São Paulo não é Londres.

Nada, solitariamente, muda uma cidade tão grande e com tantos problemas que se acumularam por décadas. Não será a bicicleta isolada que irá acabar com os congestionamentos colossais. É o somatório, onde a bicicleta é uma parte do todo.

E, depois de tanta teoria, nada se faz sem líderes. Não só gestores públicos; líderes em todas as áreas a conduzirem o processo. Não há revolução sem liderança.
E lideranças com conceito e conteúdo realmente empenhadas em realizar um projeto profundo de mudanças. Um outro Cidade Limpa, mais amplo.

São Paulo, uma Cidade Inteligente para os brasileiros que vivem aqui.

José Luiz PortellaJosé Luiz Portella Pereira, 58, é engenheiro civil especializado em gerenciamento de projetos, orçamento público, transportes e tráfego. Foi secretário-executivo dos Ministérios do Esporte e dos Transportes, secretário estadual dos Transportes Metropolitanos e de Serviços e Obras da Prefeitura de São Paulo e presidente da Fundação de Assistência ao Estudante. Formulou e implantou o Programa Alfabetização Solidária e implantou o 1º Programa Universidade Solidária. Escreve às quintas-feiras na Folha.com.

 

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