RIO – Gabriel Carvalho, de 13 anos, não tem dúvidas. Entre uma maçã e biscoitos recheados, uma barrinha de cereais e uma porção de batatas fritas ou um copo de leite e um refrigerante, ele sempre fica com a segunda opção. Desde a infância foi assim. O gosto apurado de adolescentes para alimentos de baixo teor nutritivo não é somente uma questão cultural, dizem nutricionistas. Estudos mostram que a preferência para guloseimas também está associada à própria composição de produtos açucarados, salgados e gordurosos; fabricados para excitar o paladar e ativar no cérebro a sensação de prazer. Mas dá para acabar com esta dependência química a aditivos alimentícios, e o primeiro passo é a reeducação alimentar.

O poder viciante de produtos processados foi observado em pesquisas feitas por neurocientistas, como Nicole Avena, da Universidade da Flórida, e Bartley Hoebel, de Princeton. Seus estudos demonstraram que o açúcar refinado, assim como sal e gorduras saturadas, causam o mesmo efeito no cérebro de drogas como a cocaína. Priscila Maximino, da clínica Nutrociência, especializada em adolescentes, reforça que alimentos industrializados, muitos de baixo custo, estimulam o paladar e liberam mensageiros químicos que ativam a sensação de prazer e bem-estar.

Pouco consumo de água preocupa

Portanto, ensina Priscila, a orientação dos pais é importante para a fazer a escolha certa já infância; são eles quem decidem o que a criança vai por no prato. Na adolescência, apesar de os jovens decidirem o que querem comer, quem ainda faz as compras são os pais, e nesta fase, continuam a ter papel essencial na educação nutricional:

– Ouço pais reclamando que seus filhos não comem verduras, frutas, legumes, mas eles também não – afirma Priscila. – Não raro vejo adolescentes hipertensos, com fígado gorduroso e colesterol alto, tomando medicamentos que antes eram apenas para adultos.

Não é só isso. Dados do IBGE mostram que 15% dos brasileiros entre 6 e 18 anos estão acima do peso; 5% são obesos e estes índices continuam aumentando. Um motivo, além do junk food, é o baixo consumo de leite e seus derivados, hábito que além de ajudar no aumento do peso, enfraquece.

– Atingimos o pico de massa óssea aos 25 anos e o leite é a melhor fonte de cálcio. Mas crianças e jovens tendem a substituí-lo por refrigerante – diz a presidente da comissão científica da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, Carmen Regina Leal de Assumpção. – Vale lembrar que substâncias em refrigerantes impedem fixação do cálcio.

Carmen faz outro alerta. Uma criança não obesa entre os primeiros anos de vida tem um risco de 10% de se tornar um adulto gordo. Caso seus pais sejam obesos, este índice varia entre 15% e 25%. Porém, na faixa de 15 aos 17 anos, se o adolescente não for obeso e um dos pais for, o risco de se tornar um adulto gordo é de 14%. Agora, se o jovem for obeso, esta probabilidade é maior, 54% se os pais não forem gordos, e 73% se pelo menos um deles for.

Para reduzir esses números, uma estratégia, diz Priscila, é relacionar comida à saúde, e não à doença:

– Se o jovem gosta de esportes, ensine que o cálcio, presente em laticínios, vai fortalecê-lo. Que beber líquidos saudáveis, principalmente água, é melhor do que refrigerantes e ajuda a evitar cãibras. Que o ferro, encontrado no feijão e nas carnes, é bom para concentração.

A ideia é boa porque, em geral, jovens não se ligam na própria saúde, diz a nutricionista Maria Fernanda Elias Llanos, e o sabor e o prazer acabam tendo mais peso do que os bons nutrientes:

– Um fator prejudicial é a ausência dos pais, que saem para trabalhar e não conseguem preparar e fazer refeições em família. E comer lanche ou pratos prontos acaba virando rotina – comenta Fernanda. – Biscoito ou refrigerante pode sair mais caro do que comprar legumes, verduras, hortaliças, ovos.

E uma pesquisa com 478 estudantes, de 9 a 12 anos, de escolas de Duque de Caxias no Estado do Rio, revelou o quanto é importante estimular as crianças a comerem de forma saudável. Segundo o levantamento, coordenado pela nutricionista Diana Barbosa Cunha, do Instituto de Medicina Social da Uerj, 27% dos participantes estavam acima do peso e 52% do total não pensavam em mudar a alimentação. E ela não era nada saudável. Biscoitos e refrigerantes faziam parte do cardápio diário, e havia jovens que não conheciam frutas e hortaliças ao natural. Um dado chamou a atenção:

– Eles bebiam pouca água, hábito importante para eliminar substâncias tóxicas e até para emagrecer – conta Diana.
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