Município paraense das palafitas não permite carros e motos.
Moradores ‘turbinam’ os chamados bicitáxis com tocador de DVD.

Laura Brentano Do G1, em Afuá (PA)

Bicitáxi do morador Elisomar Gemaque chega a valer R$ 10 mil (Foto: Laura Brentano/G1)
Bicitáxi do morador Elisomar Gemaque chega a valer R$ 10 mil (Foto: Laura Brentano/G1)

Aparelho de DVD, caixa de som potente e tela de vídeo não são componentes exclusivos para carros. Em Afuá (PA), cidade da Ilha do Marajó, os moradores gastam dinheiro turbinando os seus bicitáxis.

Na série lig@dos, o G1 vai mostrar como pessoas de diferentes locais se relacionam com a tecnologia. Na primeira etapa, mostraremos três cidades em diferentes estados da região Norte do país. Mande suas perguntas na área de comentários ao final da reportagem.

O primeiro modelo criado por Gonçalves em 1995, com três rodas (Foto: Laura Brentano/G1)
O primeiro modelo criado por Gonçalves em 1995,
com três rodas (Foto: Laura Brentano/G1)

Como o município não permite carros e motos, a solução encontrada por Raimundo Gonçalves para ter mais conforto foi o bicitáxi. Em 1995, ele criou o primeiro modelo que, na época, tinha três rodas. “Durante quatro anos, eu tinha o único bicitáxi da cidade. As pessoas pagavam para dar uma volta nele”, conta.

Pensando em melhorar o seu meio de transporte, Gonçalves juntou duas bicicletas tradicionais e montou o bicitáxi como é mais conhecido hoje. Desde então, já foi criada a “bicilândia” e o “bicitáxi escolar”. “Hoje, quase todas os bicitáxis vêm com DVD ou CD player”, conta. Um bicitáxi simples custa cerca de R$ 1 mil e leva uma semana para ser criado. Os clientes que quiserem incluir outros elementos tecnológicos precisarão desembolsar mais R$ 1 mil.

Afuá - mapa lig@dos (Foto: Editoria de Arte/G1)

 

Há cinco anos, Manoel Lobato, de 39 anos, colocou um aparelho e uma tela de DVD no seu bicitáxi. “Nos finais de semana tiro um dinheirinho levando as pessoas para passear”, conta. Já Elisomar Gemaque, de 36 anos, sempre teve vontade de ter um carro, e acabou adaptando o seu bicitáxi ao seu desejo antigo. “Quando eu vivia em Belém, cheguei a juntar dinheiro para comprar um veículo. Mas acabei optando por um apartamento”.

Manoel Lobato colocou aparelho e tela de DVD há cinco anos e gastou R$ 1 mil (Foto: Laura Brentano/G1)
Manoel Lobato colocou aparelho e tela de DVD há cinco anos e gastou R$ 1 mil (Foto: Laura Brentano/G1)

O bicitáxi de Gemaque saiu da oficina em 2006 custando R$ 3 mil. No entanto, ele continuou “turbinando” a sua bicicleta, que hoje vale R$ 10 mil. “Como meu pai me ajudou a pagar, depois que ele faleceu, o bicitáxi ganhou um valor sentimental muito grande. Já me ofereceram uma casa, mas eu não vendo”, conta.

Com retrovisor, faróis, amortecedor, marcha e freio, o bicitáxi de Gemaque é praticamente um carro. “Só falta o motor”, brinca. Todos os equipamentos são ligados a uma bateria que chega a durar uma semana, segundo Gemaque. “Acompanhei toda a montagem, que durou cerca de seis meses. Todas as peças foram retiradas de carros, como o Uno e o Tempra, da Fiat”, conta. “Hoje, eu uso muito para passear com a minha filha de 3 anos no final de semana. Por isso, só tenho música infantil”.

Carcaça de ferro do bicitáxi antes de receber pintura (Foto: Laura Brentano/G1)Carcaça de ferro do bicitáxi antes de receber pintura (Foto: Laura Brentano/G1)

Para montar o bicitáxi, já existem diversas oficinas em Afuá. O primeiro passo é a montagem e adaptação da carcaça de ferro conforme o gosto do cliente. Depois, as bicicletas são encaixadas na estrutura, que é pintada. O último passo são os itens mais modernos, como tocador de DVD e até apoio para copo. Hoje, Gonçalves, o inventor do bicitáxi, acredita que existam cerca de 150 veículos semelhantes circulando em Afuá.

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