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Novas pesquisas mostram que a química que nos dá conforto também traz riscos

A artista plástica Margarete Claret, de 34 anos, foi criada num sítio em Saudades, no interior de Santa Catarina. Colhia legumes direto da terra e apenas os esfregava na camiseta antes de comê-los. Diz nunca ter ficado doente. Mesmo assim, mudou suas práticas para criar o filho, Matheus, de 2 anos e 3 meses. A cada uso, ela esteriliza a mamadeira e a garrafinha de beber água. Como milhões de mães, no Brasil e no mundo, Margarete não poupa esforços para proteger o filho de alguma doença. Mas novos estudos revelam que esse tipo de cuidado traz um risco à saúde de Matheus.

O risco não está só em esquentar mamadeiras de plástico. Neste ano, a Food and Drug Administration (FDA), entidade americana que é referência mundial no controle de alimentos e drogas, reabriu sua investigação a respeito dos efeitos sobre o organismo de dois compostos químicos comuns na casa de qualquer pessoa.

Primeiro, veio o alerta sobre uma substância usada para dar resistência ao plástico, o bisfenol A (BPA). Em janeiro a FDA anunciou que seriam gastos US$ 30 milhões em estudos científicos para garantir que a substância, usada para aumentar a resistência de embalagens plásticas, como a mamadeira de Matheus e o próprio esterilizador, não é nociva à saúde. Estudos sugerem que o bisfenol, usado pela indústria desde os anos 40, se desprenderia do plástico quando submetido a altas temperaturas. O acúmulo da substância no organismo poderia aumentar o risco de malformação fetal e de impotência masculina. No mês passado, foi a vez de a FDA levantar suspeitas sobre uma substância criada justamente para nos proteger de doenças, o triclosano. Alguns estudos sugerem que o composto, encontrado em sabonetes, escovas de dente e até meias antibactericidas, poderia causar problemas hormonais. A FDA afirma que não é o caso de evitar consumir produtos com bisfenol A e triclosano, pelo menos não antes de outros estudos confirmarem a tese. Mas os alertas dos últimos meses já são suficientes para levantar uma suspeita incômoda sobre nossos hábitos: estaríamos nos envenenando sem saber?

A desconfiança de que compostos químicos usados em produtos industrializados possam causar danos à saúde não é novidade. O medo da contaminação química é quase tão antigo quanto a indústria. As primeiras manifestações de receio popular apareceram após a Segunda Guerra Mundial, quando a indústria popularizou os plásticos e outras substâncias sintéticas derivadas de petróleo. O primeiro alerta surgiu em relação a um grupo de compostos complexos com cloro, conhecidos como bifenil policlorados, ou PCBs. Eles são usados como isolamento na indústria eletrônica desde os anos 30. A Escola de Saúde Pública de Harvard organizou um congresso sobre os perigos dos PCBs em 1937. Vários estudos científicos comprovaram seus efeitos tóxicos. A substância descartada pelas fábricas vai para o ambiente, entra na cadeia alimentar das plantas e dos animais e vai se acumulando nos organismos, até chegar ao homem. Estudos associam a substância a danos no fígado, na pele e lesões oculares. Em crianças, há relatos de problemas cognitivos. O acúmulo de evidências levou, a partir da década de 70, a restrições ao uso dos PCBs. A concentração da substância permitida nos produtos tem sido cada vez menor.

A opinião pública começou a se organizar para vigiar o uso das substâncias químicas a partir da publicação, em 1962, do livro Silent spring (Primavera silenciosa) , em que a jornalista americana Rachel Carson apresentou os efeitos nocivos dos pesticidas. O foco principal era o DDT, substância usada com sucesso para controlar a malária. Nos anos 70 e 80, os países desenvolvidos vetaram o DDT e boa parte do mundo em desenvolvimento restringiu seu uso. Hoje, só China, Índia e Coreia do Norte o produzem. A pressão de grupos de consumidores e ambientalistas em relação a outras substâncias químicas cresceu. Em 2004, a Convenção de Estocolmo, assinada por 168 países, se propôs a restringir o uso de 12 substâncias poluentes que persistem no ambiente. Novas pesquisas obrigaram a convenção a listar mais nove substâncias em 2009. E a lista de suspeitos está aumentando. O que alimenta o medo são casos de contaminação em massa. Em 2008, o leite da empresa chinesa Sanlu, contaminado com melamina, intoxicou 1.255 bebês, que sofreram com pedras nos rins. Dois morreram.

“Não adianta entrar em pânico”, diz a endocrinologista Ângela Maria Spínola e Castro, da Universidade Federal de São Paulo. “É bom despertar a consciência para o assunto, mas não faz sentido se preocupar com o copo de plástico do supermercado, produzido conforme padrões de qualidade fiscalizados, e comprar um brinquedo contrabandeado, que pode ter chumbo na tinta.”

A lista de produtos suspeitos cresce por dois motivos. Primeiro, com mais anos de uso é possível fazer uma análise de longo prazo dos efeitos das substâncias no organismo. Segundo, o avanço das técnicas de monitoramento nos permite hoje detectar concentrações ínfimas. Graças a esses dois fatores, uma série de pesquisas recentes levou ao centro das discussões científicas uma suspeita antes restrita a ambientalistas radicais. “Essa é uma das principais discussões hoje na comunidade científica”, afirma o pesquisador Paulo Saldiva, da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP).

Um conjunto robusto de pesquisas deixou pouca dúvida sobre a possibilidade de compostos químicos se desprender de produtos e parar em nosso organismo. Um levantamento do Centro para Prevenção e Controle de Doenças, agência que reúne dados epidemiológicos dos Estados Unidos, mostrou que há pelo menos 212 substâncias químicas na urina ou no sangue dos americanos – incluindo um composto resultante do processamento pelo organismo do pesticida DDT, banido há mais de três décadas. O bisfenol A, a substância encontrada em mamadeiras que está sob o crivo da FDA, foi observado em 93% das pessoas que participaram da pesquisa.

Agora, os pesquisadores estudam os efeitos a longo prazo da contaminação por essas substâncias e por sua ação combinada (que é diferente, e supostamente pior, da ação testada isoladamente em cobaias, no laboratório). A principal preocupação dos cientistas é com compostos químicos que podem influenciar na produção, ação e eliminação de hormônios. O bisfenol A e os compostos conhecidos como ftalatos (usados em fragrâncias e também para dar maleabilidade a plásticos) estariam nessa categoria. Um estudo publicado no mês passado na revista científica Environmental Health Perspectives analisou os efeitos dos ftalatos. A pesquisa sugere que as mulheres que apresentavam níveis mais altos dessas substâncias durante a gestação tinham mais chances de ter filhos com problemas de comportamento na infância. Em fevereiro, o pediatra americano Philip Landrigan, diretor do Departamento de Medicina Preventiva da Escola de Medicina Mount Sinai, em Nova York, publicou um artigo enumerando estudos que relacionam contaminação por ftalatos à ocorrência de autismo em crianças. “Estou cada vez mais certo de que o autismo tem relação com o impacto de produtos químicos sobre o cérebro em formação”, diz Landrigan. Ele também é autor de um estudo que associa a obesidade à contaminação por ftalatos.

Marcos Camargo

“A vida hoje em dia é assim. Estamos expostos a muitas substâncias que fazem mal” MARGARETE CLARET, artista plástica e mãe de
Matheus, de 2 anos

“Fui ao supermercado e não comprei quase nada” JEANNE HAEGELE, blogueira americana que tentou passar três anos sem plástico

  Divulgação

Revista Época

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