Na casa do alagoano, um armário guarda todas as fichas da edição original, que foram mantidas para consulta. O autor não se desfez até o fim da vida.

Aurélio Buarque de Holanda foi professor de português, um alagoano tão apaixonado pelas palavras, que registrou todas no seu dicionário. Uma história belíssima que começou há exatos 100 anos.

Quando há dúvida sobre a grafia de uma palavra, “vou procurar no Aurélio”, diz um estudante.

Esse nome, que virou quase sinônimo de dicionário, pertenceu a um apaixonado pelas letras. Filólogo, escritor, tradutor, crítico, um trabalhador incansável.

“Ele trabalhava sem parar. Às vezes eu estava deitada, ele deitado, olhava para cama, e ele tinha fugido. Se acordasse no meio da noite, me via dormindo e ia trabalhar, gostava muito de trabalhar à noite”, lembra a viúva do escritor Marina Baird Ferreira.

“O tempo todo, trabalhando ou não trabalhando, estava lendo. Parava conversa e lia”, conta o filho de Aurélio Buarque de Holanda, Aurélio Baird Ferreira.

Em uma estante há medalhas, honrarias e curiosidades da vida do alagoano que desde cedo, se dedicou à língua portuguesa. Uma página do livro de contos “Dois Mundos”, premiado pela Academia Brasileira de Letras, onde foi um dos imortais, é uma raridade, já que o autor costumava rasgar os originais, depois de publicados. Nela, uma dedicatória para a esposa Marina.

Na biblioteca que pertenceu a Aurélio Buarque de Holanda está uma parte dos dez mil livros que ele guardou durante toda a vida. Quando menino, Aurélio não teve um dicionário para consultar e por isso fez questão de escrever um que fosse acessível a todos, com as palavras que estavam na boca dos brasileiros. Cada vocábulo era escrito à mão, em uma fichinha, e depois repassado a seus ajudantes. Ainda hoje uma equipe trabalha para manter viva uma das obras mais consultadas da nossa língua.

A primeira edição tinha 115 mil palavras. “Esse dicionário eu poderia dizer que significa muito da minha vida, obra de uma vida”, disse Aurélio em 1975 ao Arquivo Nacional.

A nova edição, que sai em outubro, terá 137.838 verbetes. Uma obra de muita pesquisa e de atualização constante.

“Pesquisamos em jornais, livros, televisão. Ouvimos nas ruas, dentro de ônibus e tudo”, explica o sociólogo Emauel Pinho.

Entre as novidades, gírias como “balada”.

“É um dicionário que acompanha as mudanças que a língua sofre ao longo do tempo. Isso talvez tenha sido uma das chaves de êxito do dicionário”, comenta o filólogo e acadêmico Domício Proença Filho.

Mas embora a lista cresça no computador, um armário guarda um tesouro: todas as fichas da edição original, que foram mantidas para consulta. Destas o autor não se desfez até o fim da vida.

“Papai nunca falou palavrão, nunca falava uma palavra com pronúncia errada”, descreve o filho de Aurélio Buarque de Holanda, Aurélio Baird Ferreira.

Trinta e cinco anos depois de ser lançado, o dicionário Aurélio continua sendo adotado por crianças, jovens e adultos, todos os brasileiros que buscam aprimoramento na maneira de falar e escrever.

Além de popularizar o acesso ao dicionário, Aurélio Buarque também inovou ao trazer citações de outros autores ao lado da definição das palavras. Mas não deixou que o próprio nome fosse incluído na lista, como sinônimo de dicionário.

“Achou que era vaidade demais”, conclui a viúva do escritor Marina Baird Ferreira

Bom dia Brasil

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