As três formas de conhecer o país

Camila Anauate/AE

Na garupa de um riquixá, a pé ou no lombo de um elefante, a Índia é pura e simplesmente arrebatadora

As três formas de conhecer o país

NOVA DÉLHI - Por enquanto, a rua é larga e o apito ardente da buzina não cessa. Da garupa do riquixá, vejo o motorista jovem e franzino levantar, fazer uma força quase sobrenatural e pedalar. Levanta e pedala e tira fino dos carros, das motos, das bicicletas. Da vaca. Não, a mãe vaca é sagrada. Para, dá a preferência.

Nem pense em fechar os olhos, leitor, isso é melhor que montanha-russa. Os tuc tucs passam a milhão. Buzinam para as charretes, para as pessoas levando mercadorias na cabeça. Para fazer graça. Pedestres atravessam e nem olham. O condutor levanta, quase tomba para a direita, desvia rapidamente. E isso na mão inglesa que eles adotaram em Nova Délhi.

Fica fácil entender por que os guias insistem em dizer que para dirigir na Índia é preciso bons freios, boa buzina e boa sorte. Acrescente jogo de cintura. Tudo anda junto – e misturado. Semáforos? Para quê? Se estão lá, são meros figurantes.

O condutor franzino vira bruscamente à esquerda e entra nos becos de Chandni Chowk, no coração de Old Délhi. Carros não passam nas ruas minúsculas da região, mas o congestionamento impressiona. É como se os 17 milhões de habitantes da capital estivessem todos ali. Nas casas, nos barracos, nas lojas, sob o novelo de fios elétricos. O riquixá segue entre sáris, bananas e moscas. Uma profusão de cores. E cheiros. Do incenso ao escapamento.

As vielas de Chandni Chowk formam um imenso bazar. Conforme o condutor pedala, vitrines lotadas de pashminas, tapetes, turbantes e ouro, muito ouro, passam como borrões. Hindus e muçulmanos acenam, sentados à porta das lojas, comendo samosa e bebendo tchai. Dá vontade de pular do riquixá e começar logo a pechincha, hábito secular. Na verdade, nem precisa descer do veículo. Se você esticar o braço, consegue agarrar aquele lenço de seda em troca de pouquíssimas rupias jogadas ao vendedor.

Aos poucos, o riquixá vai se desvencilhando desse nó. As cores, os cheiros, o barulho, a buzina. Tudo perde força. Um último suspiro diante da Mesquita Jama Masjid. Há um certo controle no caos.

MAIS UMA VOLTA

Já que o passeio termina diante da maior mesquita da Índia, tire os sapatos e cubra-se para conhecer seu interior. Quando chegar ao último degrau da escadaria, o espanto será inevitável. Um grande pátio com pilares e arcos rodeia os três domos de mármore e os dois minaretes da Jama Masjid.

Fiéis lavam os pés na dukka antes dos rituais. Outros sentam nos corredores esperando esmolas. A revoada de pombas faz barulho. Depois de dar uma volta, tudo o que dá para fazer é subir no minarete. Dali, sim, uma vista incrível dos becos de Old Délhi. E da confusão em que você se meteu de riquixá.

Lá embaixo, o condutor ainda está aguardando. Por mais gorjeta ou outra volta. Siga com ele para o bairro de Nova Délhi. Mas combine o preço antes: 100 rupias é um valor médio para qualquer canto da cidade.

Pelo caminho, mesquitas, monumentos e mil outros riquixás. Alguns passam lotados de crianças uniformizadas. Além de perua escolar, o veículo serve de casa. A maioria dos motoristas aluga as bicicletas e suas carrocerias para trabalhar e dormir – Nova Délhi tem o metro quadrado mais caro do país.

A voltinha em Nova Délhi é outra experiência. Uma Índia como nunca se imagina. Avenidas largas e arborizadas, hotéis de luxo, mansões inglesas da década 1930. Tem até um Arco do Triunfo (Porta da Índia) e um templo em formato de lótus. Mas nada com tanta graça.

NA INTERNET
No completíssimo www.incredibleindia.org você encontra todas as informações necessárias para organizar a viagem e alguns vídeos interessantes sobre o país.

Nós já visitamos outras regiões da Índia, como Mumbai, coração de Bollywood, e Goa, que mais parece um pedacinho de Portugal. Reportagens e fotos estarão disponíveis hoje no blog do Viagem: blogs.estadao.com.br/viagem

O Estado de S.Paulo

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