Por longos e longos anos, a voz de Nelson Fortunato saiu de um alto-falante e percorreu a pequena Nova Europa, no interior de São Paulo, para anunciar as mortes ocorridas na cidade. O serviço, de utilidade pública, que vez ou outra divulgava também achados e perdidos, era voluntário.

Anteontem, a mesma voz já conhecida no povoado de 9.047 habitantes foi ao ar, pela rádio comunitária local, para o último anúncio dele: o de sua própria morte.

“Estou anunciando o meu falecimento. Falecimento de Nelson Fortunato. Como foi gravado com antecedência, não tem a hora do enterro, mas o mais importante é que todos saibam que morri.”

E assim todos souberam do fato, por uma gravação que ele, brincalhão, deixou pronta para um documentário feito em 2006. Eduardo, o neto, diz que o avô morreu de velhice, aos 90 anos, com a saúde agravada por pneumonia. Tinha complicações renais e de diabetes.

Em seu enterro, também ocorrido anteontem, um carro de som acompanhou o cortejo, tocando a música “Il Silenzio”, que ele botava para anunciar à população as sessões de cinema.

Devido ao fato de a música sempre soar pelo alto-falante, ela é considerada por muitos como um dos hino de Nova Europa. “Quem vai morar fora e escuta a música, lembra na hora da cidade”, conta Sônia Mendonça, da rádio comunitária.

Da Folha de S.Paulo

Related Posts with Thumbnails