Com feição colonial e boas baladas, cidade é alternativa a Buenos Aires

Na Manzana Jesuítica, construções do século 17, feitas por índios sob o comando dos padres. Agência Córdoba/Divulgação
CÓRDOBA – Cabelinhos repicados à moda argentina, violão, pilhas de livros e a térmica de chimarrão ao lado. Fotografia recorrente nos fins de tarde de Córdoba. Essa cidade na região central do país, repleta de construções coloniais, reúne nada menos que 150 mil estudantes (12% de sua população), distribuídos em sete universidades.
Alguns são estrangeiros querendo aprender espanhol. Outros, argentinos atraídos por faculdades que cobram valores mais enxutos que as de Buenos Aires. O certo é que animação não falta, seja logo pela manhã ou noite avançada.
Mais compacta que a capital, Córdoba tem personalidade própria – e serve de alternativa para quem já conhece cada tijolo da Casa Rosada. Chegar lá é fácil, graças ao aeroporto internacional, e há até voos diretos do Brasil, partindo de Porto Alegre (leia mais abaixo).
Fundada em 1573, Córdoba exibe atualmente prédios modernos, cafés e boas livrarias. Mas se destaca mesmo por joias como a Manzana Jesuítica, conjunto de quatro ruas com construções do século 17, feitas por índios sob o comando dos jesuítas. Tudo Patrimônio da Humanidade. Nesse quarteirão ficam, ainda, a Igreja da Companhia de Jesus, em forma de crucifixo, e a Universidade de Córdoba, de 1613 – primeira do país e uma das mais antigas da América Latina.
Fora desse eixo, merecem visita a Catedral e o Cabildo, antiga prefeitura que abriga shows e museu.
Um cenário bem diferente desponta no bairro Nueva Córdoba. Inaugurado há dois anos, o Paseo Buen Pastor compõe uma das visões mais bonitas da cidade. O prédio da antiga cadeia feminina, onde antes ficavam as consideradas inimigas da ditadura, foi totalmente restaurado e mudou de função. Agora, integra um complexo de lojas, restaurantes e espaços para exposições.
É para Nueva Córdoba que os estudantes de cabelos repicados seguem para curtir os bares e pubs, espalhados pelas Rondeau e Larrañaga. As baladas – ou boliches – se concentram em Alta Córdoba, Chateau Carreras e Abasto. Como o jantar sai lá pelas 22 horas, as danceterias só lotam depois da 1h30. Haja pique.

Como chegar: o trecho São Paulo-Córdoba-São Paulo custa desde R$ 557,54 na Gol (0300-115-2121), com escala em Porto Alegre. A Aerolíneas (0800-707-3313) cobra R$ 648,25 e a LAN (0800-761- 0056), R$ 640,26. Ambas com conexão em Buenos Aires
Compras: o equivalente da portenha Calle Florida é o Paseo de las Flores (foto). As flores que dão nome à alameda enfeitam a via cheia de butiques e galerias. O calçadão 25 de Mayo e o Paseo de Santo Domingo são ótimos para ver lojinhas e caminhar. Artigos em couro são mais baratos em Córdoba que em Buenos Aires
Comida: na hora da fome, não faltarão lugares para pedir parrilla, o tradicional churrasco argentino. Mas se quiser variar um pouco, vá de cozinha criolla: ensopados de carne de boi ou porco com legumes e assados de cabritos, leitões e ovelhas. Um tanto semelhantes com nosso bem-casado, os alfajores cordoveses são apreciados em todo o país e custam a metade do preço dos famosos Havanna
Em Alta Gracia, o legado do morador mais ilustre: Che Guevara
CÓRDOBA – Nada como clima seco e ar puro para amenizar os efeitos da asma. Foi isso que a família Guevara ouviu do médico quando Ernestito, então com 4 anos, começou a apresentar os problemas respiratórios que o acompanhariam durante toda a vida. Por isso, em 1932, Ernesto Guevara, o Che, mudou-se com os pais de Buenos Aires para Alta Gracia, a 36 quilômetros de Córdoba.
Em 2001, a ampla casa térrea de estilo inglês, no bairro de Villa Nydia, virou museu. Uma estátua de Che sorrindo, sentado no parapeito do alpendre, dá as boas vindas ao visitante. Por 2 pesos (R$ 0,95), é possível percorrer os cômodos, que recriam os ambientes onde o guerrilheiro viveu por 11 anos.
Sobre a cama, livros de aventura e a famigerada bombinha de asma. Quando não podia brincar com os amigos por causa da doença, ele se refugiava na cozinha. As receitas penduradas na parede dão conta de que Ernestito passava horas com a cozinheira Rozarito, recortando receitas para agradá-la.
Muitas fotos da infância, da família e da época de guerrilha estão nas paredes. Dos objetos pessoais, cartas e postais do acervo, dois itens se destacam: as réplicas da bicicleta Garelli motorizada, que Che usou em sua primeira viagem pela América Latina, em 1950, e da moto Norton, igual a “A Poderosa 2″, usada por ele e Alberto Granado em 1951, no trajeto que deu origem ao filme Diários de Motocicleta (2004), de Walter Salles.
Além de Che, Alta Gracia merece ser visitada pelas construções dos tempos dos jesuítas, que renderam à cidade o título de Patrimônio da Humanidade. O município integra o Caminho das Estâncias Jesuíticas, circuito de 250 quilômetros pelas estradas das Sierras Chicas. A principal atração é o Museu de Alta Gracia, instalado numa casa de 1643. O complexo abriga ainda uma igreja de 1723.
Aventura cheia de cores pelos arredores
Tirolesa para ver águias de perto e trekking são opções

Alline Douroiz/AE
LA CUMBRECITA – Voo sobre o vale no Parque Peñon del Àguila
CÓRDOBA – Os arredores de Córdoba escondem serras majestosas, cujo cenário se modifica conforme a época do ano. No verão, o forte calor – que pode passar dos 40 graus – só é aplacado com um passeio pelos rios e lagos da região. As estradas têm o colorido das flores na primavera, são verdes no verão e beges no outono e no inverno, quando pode até nevar. O clima continental e seco ajuda a definir bem as estações e a geografia é um convite aos esportes de aventura. Impossível não aceitá-lo.
Você pode começar, por exemplo, pela cidade de La Cumbrecita, 1.400 metros acima do nível do mar. Ali, a 120 quilômetros de Córdoba, fica o parque temático Peñón del Águila. Com um belo cenário natural em estilo montanhês – com direito a cabanas de madeira, imitação de trenzinho suíço e moças vestidas de camponesas -, faz o visitante se sentir em um desenho animado. Dito assim pode soar meio brega. Mas basta chegar aos deques de atividades para entrar no clima.
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As cinco tirolesas, com 700 metros de extensão e 40 metros de altura, oferecem uma vista privilegiada do sobrevoo das águias que dão nome ao local. Lá embaixo, represas e cachoeiras, onde os turistas mergulham em dias quentes. Há também rapel, arvorismo, passeios de triciclo e trilhas. No restaurante, as especialidades são os pratos alemães, a truta grelhada e as tortas doces.
Outro passeio interessante é pelo Parque Nacional Quebrada del Condorito, criado em 1996 para proteger as bacias hídricas e o condor andino. Sobre penhascos de 800 a 1.500 metros de profundidade, pode-se ver os condores planando em direção aos ninhos. Dá para acampar no parque e fazer cavalgadas. Mas é preciso disposição para encarar esse trekking: o passeio completo dura, em média, sete horas.
Não tem fôlego para tanto? Que tal, então, encarar um tour de 4X4? No Vale de Calamuchita, no centro da província, realiza-se desde 1984 o circuito argentino de rali. A corrida deste ano ocorreu em abril, mas quem quiser aventura com tração nas quatro rodas pode aproveitar os percursos cortados por riachos do Camino del Cerro los Linderos e da Quebrada de los Laureles.
PASSADO
Para dar um tempo na adrenalina, descubra a herança alemã,austríaca e suíça da cidade de Villa General Belgrano, a 90 quilômetros de Córdoba. Há até uma Oktoberfest – neste ano, de 2 a 12 de outubro -, além de confeitarias e bares de cervejas artesanais. O povoado de construções no estilo alpino promove também a Festa do Chocolate Alpino (em julho e agosto) e o Festival das Massas Vienenses (na Semana Santa). Duas ótimas desculpas para descuidar da dieta.
Alline Douroiz – O Estado de S.Paulo











