
SEM PERSEGUIÇÕES - Mirante de John Ford, usado como cenário de vários westerns / Foto: Kevin Moloney/NYT
Nas áreas de preservação americanas, indígenas criam hotéis modernos em harmonia com a natureza
Os platôs avermelhados do Monument Valley, entre os Estados de Utah e Arizona, já foram cenário para diversas perseguições entre índios e caubóis. Ao menos nos filmes de John Wayne e John Ford, que usaram a paisagem repleta de penhascos e vales profundos para filmar seus westerns. É bem provável que, para conseguir as tomadas, a equipe cinematográfica tenha se hospedado em trailers e tendas. Realidade diferente de quem visita a região hoje. Uma geração de empresários indígenas mudou a cara do turismo local, criando hotéis autênticos e, ao mesmo tempo, confortáveis e modernos.
Um dos pioneiros nesse sentido está no Monument Valley Navajo Tribal Park. O View pertence a uma família da tribo navajo e foi construído com a preocupação de levar para dentro do ambiente o esplendor da paisagem que o circunda. Na cozinha, o chef MacNeal Crank utiliza ervas e verduras da própria horta e reinterpreta as receitas tribais que aprendeu com a avó.
A 240 quilômetros dali, ainda no Arizona, há um ambiente bem semelhante em Canyon de Chelly, no Thunderbird Lodge. O antigo posto dos Correios de 1896 ganhou ares contemporâneos no hotel dirigido por funcionários navajos. Nos 73 quartos, internet wireless e decoração simples, mas de bom gosto, com quadros pintados por artistas locais.
PINTURA AO VIVO – Janelas amplas para mostrar a paisagem no View
A área que compõe o parque tem mais de 300 mil metros quadrados (quase o tamanho do Estado de São Paulo). Toda a terra pertence aos navajos – 80 famílias vivem ali. Ônibus de excursão não são permitidos e, exceto uma trilha, os visitantes só entram na reserva acompanhados por um guia da tribo.
Os tours pelo cânion em carros 4X4 oferecidos no Thunderbird são, até por isso, sempre acompanhados por um navajo. Outra opção são as cavalgadas – no nosso caso, tivemos a companhia de Cedric Aragon, de 28 anos, sócio do Rancho Totsonii. Seguindo em um ritmo tranquilo, descobrimos ruínas, pinturas em cavernas e sítios arqueológicos incríveis.
Em um determinado ponto do cânion, Aragon gritou: “Hooeee!” Imediatamente, recebeu uma centena de respostas, vindas de incontáveis pontos do cânion. Diante da minha admiração, ele explicou: “Eles podem ouvir você de qualquer lugar. Mas não podem localizá-lo. É por isso que esse lugar é especial: protegeu nosso povo por muito tempo.”
OUTRAS EXPERIÊNCIAS
Não é só em Canyon de Chelly que os nativos americanos apostaram em empreendimentos convidativos. No Novo México, o Sky City Cultural Center, cujo restaurante serve pratos locais e indígenas, foi inaugurado aos pés do Pueblo Acoma. Ali é possível comprar passeios para percorrer o povoado.
O turismo tribal ganhou espaço, ainda, no território dos wendakes, ao norte de Quebec, no Canadá. O Huron Wenat, hotel-museu construído com vidro e madeira, enfatiza o conceito wendake de “ausência de limites”. Seus 55 quartos ficam às margens do Rio Akiawenrahk. Para explorar a região, há diversas trilhas de bike.
Todos esses empreendimentos têm em comum o respeito pelo patrimônio cultural e consciência ambiental combinados com a sofisticação do século 21. Foi assim, ouvindo histórias das tribos, explorando cânions e dormindo muito bem, que descobri uma nova e gratificante maneira de viajar.
COMO IR
PASSAGEM AÉREA
SP-Albuquerque-SP: a partir de R$ US$ 992 na American Airlines (0–11-4502- 4000), US$ 1.205 na Continental (0–11-2122-7500), US$ 1.236 na United (0–11-3145- 4200) e US$ 1.292 na Delta (4003-2121). Com conexão
Bonnie Tsui – The New York Times











