
A imagem dos jogadores e da comissão técnica da Seleção Brasileira ajoelhados e de mãos dadas, em forma de círculo, no meio-campo do estádio Ellis Park, em Johannesburgo, após o tricampeonato da Copa das Confederações, poderia ter passado batida como tantas outras já vistas no âmbito esportivo. Não fosse pelo fato de estarem rezando o Pai Nosso e a Ave-Maria, é claro. Além disso, no palco, durante a entrega do troféu, alguns jogadores estavam com as camisas com mensagens religiosas penduradas nos shorts. Para os europeus, o Brasil usou essa celebração, justo quando todas as câmeras do mundo estão focadas nos vencedores, como veículo de difusão da religiosidade. A Fifa – apesar de não ter punido – mandou, após o torneio, segundo informações publicadas por agências brasileiras e internacionais, um ofício à Confederação Brasileira de Futebol (CBF) pedindo moderação nas próximas comemorações. Fato este desmentido veementemente pela assessoria da entidade.
Ateu não concorda com intromissão
Ateu dos mais radicais possíveis, o ex-deputado federal Maurílio Ferreira Lima, 69 anos, não concorda com a intromissão da Fifa de querer podar a religiosidade dos jogadores da Seleção Brasileira, como aconteceu na comemoração do tricampeonato da Copa das Confederações. Apesar de achar totalmente “irracional a forma como as pessoas exercem sua fé”, seja ela qual for, ele próprio completa dizendo que “cada um tem o direito de se manifestar da maneira como quiser”. Sendo assim, a entidade não tem nenhum direito de “meter o dedo” nessa questão.
Para o ex-deputado, um povo não deveria se meter na cultura e nos costumes de outro, mesmo quando o assunto é religião. “O melhor é que não haja influência de como cada pessoa manifeste a sua religiosidade, pois cada povo tem seus costumes, seus modos de agir”, disse Maurílio, para emendar logo em seguida: “Agora se for o chefe recriminando (neste caso, a Confederação Brasileira de Futebol), tudo bem. Não vejo problema nisso, apesar de achar irracional a maneira como as pessoas exercem sua fé”.
Questionado como se comporta num momento de difícil situação, seja ele qual for, o ex-deputado não titubeou: “Se estou doente, vou ao médico”. “As pessoas são muito egoístas. Nunca vi ninguém pedindo que o outro ganhasse na Loto. Aposto que se Deus fosse vivo, Ele estaria cheio dessa vida”, disse Maurílio, que deixou de crer em qualquer tipo de doutrina há mais de 30 anos. “Se um avião, com 248 pessoas, cai e apenas uma sobrevive, todos dizem logo que foi Deus quem a salvou. Então quer dizer que Ele matou as outras 247?”, exemplificou, mostrando um dos motivos que o deixou de ser levado pela fé.
Um dos receios dos membros da Fifa, segundo foi noticiado, é que o futebol acabe virando um palco de guerras entre diferentes tipos de religiões, como, por exemplo, uma partida entre dois times se transforme num confronto entre muçulmanos x católicos. Dada suas devidas proporções, o livro “Como o futebol explica o mundo – um olhar inesperado da globalização” (Jorge Zahar Editor), de Franklin Foer, relembra um fato inaceitável que aconteceu com a religião judaica, em Londres, na Inglaterra pós-Segunda Guerra Mundial (1939-1945). “Torcedores de todos os times da Liga atacavam o Tottenham em função dos judeus de seu bairro, mas os piores eram seus rivais do Chelsea, que compuseram algumas canções abomináveis. Uma delas dizia: Hitler vai mandá-los para o gás outra vez. Outra exortava: Ponha no gás um judeu, judeu, judeu, coloque-o no forno, cozinhe até o fim”, escreveu o autor.
No caso brasileiro, um dos principais ofendidos foi a Dinamarca. Os escandinavos pediram à Fifa uma punição severa e exemplar para que cenas com mensagens religiosas não se repetissem, assim como fizeram Lúcio e Kaká com as frases “I love Jesus” e “I belong to Jesus” estampadas na camisa, nessa ordem. E como na Europa existem vários jogadores africanos em suas ligas, a atitude do Brasil, de acordo com os dinamarqueses, poderá abrir um precedente perigoso. “A religião não tem lugar no futebol”, afirmou o diretor da Associação Dinamarquesa de Futebol, Jim Stjerne Hansen, ao jornal “Politiken”, daquele mesmo país.
Para a boleirada de Pernambuco, a atitude da Fifa nada mais é do que uma intolerância aos costumes religiosos, seja ele qual for. De acordo com o goleiro Magrão, do Sport, evangélico desde 2002, a comemoração dos brasileiros foi normal. “Eles só estavam expressando a fé que têm, era um agradecimento pelo que foi conquistado e não uma afronta a nenhuma outra religião”, disse o rubro-negro, que citou o exemplo dos egípcios se ajoelhando e rezando em direção a Meca não ter sido repercutido negativamente como está sendo o dos brasileiros.
O goleiro Gustavo, do Santa Cruz, segue na mesma vertente do leonino, porém, acredita que não pode haver exageros dentro de campo. “A própria Fifa prega tanto o não ao racismo das diferentes formas, e se ela proibir (a manifestação religiosa) estará sendo partidária. Dessa maneira não vai conseguir agregar os povos. Se bem que o exagero precisa ser combatido. O importante é respeitar a religiosidade do outro”, disse o tricolor, cristão desde 1995. Gilmar, do Náutico, é outro atleta a discordar da proibição de manifestar sua fé dentro do futebol. “Durante o Pernambucano, após fazer um gol, corri para uma câmera e mostrei a frase ‘Deus é fiel’, que estava na caneleira. Depois, nas ruas, todos elogiaram a atitude. Acharam bonito”, recordou o atacante, batizado na igreja evangélica há dez anos. “Expressar sua religiosidade não ofende ninguém. Pelo contrário, só faz ajudar quem está passando por dificuldades na vida”, completou, citando o exemplo de só ter conquistado o título de melhor atleta do Estadual através de uma bênção de Deus.
DESMENTIDO
A assessoria de imprensa da CBF, por meio do assessor Rodrigo Paiva, informou à reportagem da Folha de Pernambuco que a entidade não recebeu nenhum tipo de comunicado da Fifa orientando que os atletas fossem mais contidos nas comemorações futuras. “O que aconteceu foi que eu, ainda no campo, pedi que os atletas não subissem ao palco vestindo camisas com dizeres religiosos. Depois dali, qualquer um poderia se expressar da maneira que quisesse”, explicou.
“Quem pratica o futebol é o ser humano, e não dá para arrancar dele a sua religiosidade, o seu modo natural de ser. Tolher este tipo de manifestação vai contra a liberdade de expressão”. A afirmação acima citada é do teólogo e pesquisador dos fenômenos religiosos, João Luiz Correia Júnior, que é totalmente contra a decisão da Fifa de tentar proibir gestos espontâneos de agradecimento religioso dos atletas nos campos do mundo inteiro.
Para o estudioso, que é contra o fanatismo religioso, expressar a fé é muito bonito de se ver, além de tornar as pessoas mais humanas. Por isso, ele vê como errado o fato de a Fifa querer proibir as manifestações. “Elas (manifestações) nos tornam mais humanos, então por que proibi-las?”, indagou. “Às vezes, os gestos são tão naturais que não dá para vetá-los. O problema é quando há um extremismo, quando só você está certo, enquanto todos os outros estão errados”, comparou.
O futebol, de acordo com João Luiz Correia Júnior, é um canal importantíssimo para aproximar ainda mais as pessoas com qualquer tipo de religião. “A demonstração de fé, seja ela católica, cristã, judaica, budista, entre outras tantas, é positiva, principalmente para os jovens. Eles não precisam ver mais imagens de violência nos campos de futebol. É belo ver alguém expressando sua fé”, disse.
Um exemplo de que religiosidade e esporte podem, sim, andar juntos aconteceu durante a Olimpíada de Pequim, no ano passado, após a realização de uma prova de atletismo. “Ao cruzar a faixa de chegada, um muçulmano ajoelhou-se de imediato. Os paramédicos pensaram que ele tinha desmaiado e correram para socorrê-lo. Mas, ao vê-lo rezando em voz alta, se afastaram de modo respeitoso. Foi muito bonito ver a cena. Isso significa ter respeito à religiosidade alheia”.











